segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Resiliência

E voltamos à força da mente. À expectativa. À frustração. E à capacidade de lidar com ela. A resiliência é um conceito oriundo dos estudos físicos, que corresponde a uma característica que certos materiais têm, de acumular energia quando exigidos ou submetidos a estresse, sem que ocorra alguma ruptura. Para a psicologia, que adaptou o conceito, a resiliência se refere ao "processo e resultado de se adaptar com sucesso a experiências de vida difíceis ou desafiadoras, especialmente através da flexibilidade mental, emocional e comportamental e ajustamento a demandas externas e internas". A palavra é estranha, mas a essência é brilhante. O conceito parece vago e abstrato, mas, de fato, todos sabemos com exatidão o que ele significa, talvez mais empírica do que fundamentalmente. Por mais rígidos que julguemos ser, somos submetidos a diversas dificuldades diariamente. A maioria delas passa desapercebida, e por muitas vezes nos vinculam a mudanças intrínsecas mais difíceis ainda, o que implica num amadurecimento contínuo, sem que sequer notemos.
Flexibilizar-se não é a tarefa mais simples a ser realizada pelo ser humano. Quase sempre, uma necessidade assustadora de autoafirmar a força inatingível de nossas opiniões ou personalidades acaba por atrapalhar o processo de malemolência para com a vida. E isso complica tanto...
Ser resiliente é poder adaptar a mente a novas situações sem que isso cause uma guerra nuclear em nossa massa cinzenta. Sim, é difícil. É difícil aturar a patetice das pessoas do seu trabalho ou faculdade. É difícil ter que acordar cedo e ir dormir tarde. É difícil trabalhar e estudar ao mesmo tempo. Dificuldades progressivamente infinitas. E a mudança não cai do céu. Se há insatisfação com situações corriqueiras, das duas uma: ou a gente desiste e sai fora, ou a gente se adapta, toma coragem e resolve. Ah, ou a gente continua mergulhado em toda aquela grande infelicidade, e assim permanece. Conheço muitos. Talvez esse último, seja o caminho menos tortuoso. Afinal, é muito mais fácil sentar na poltrona e reclamar até dizer chega. Levantar e procurar outra coisa dá muito trabalho. Respirar fundo e encarar de frente, então... Fora de cogitação.
Morro de inveja da água, que se adapta tão bem a todas as três formas. Consegue ser absolutamente útil sendo sólida ou líquida. Gasosa, nem tanto. Nas outras duas, não perde o gosto nem a qualidade. Não resiste ao fato de ser congelada, depois descongelada, depois misturada, filtrada, salgada. A água é só a água. Não deixa de ser ela mesma simplesmente porque teve de flexibilizar seu estado natural.
Não deixaremos de ser quem nós somos por nos deixar levar algumas vezes. Ceder a todo tempo também não me parece a melhor opção. Resilir, sim, mas no limite das nossas vontades, sem deixar de consumar nossos sonhos e desejos em função de situações ou pessoas alheias.
Acredito que seja simploriamente uma questão de inteligência. Se diante de toda e qualquer situação que importe em dificuldades a serem enfrentadas, nos tornarmos uma cômoda barra de ferro, provavelmente só dará certo quando conseguirmos aplicar àquele problema uma característica que já possuímos inclusa na matéria-prima dessa barra. Caso a situação exija maiores esforços, a guerra está declarada. Metade do seu cérebro vai te dizer que você é assim e não vai mudar, e a outra metade só vai conseguir começar a pensar em "podia ter agido diferente" quando o resultado da rigidez já for irresolúvel. Nessa fase, você já magoou alguém. Ou já perdeu o emprego. Ou já perdeu um amigo. Ou já se perdeu.
Seja resiliente com aquele velhinho que puxa papo no ônibus na volta pra casa. Seja resiliente com seu chefe que não foi educado a tratar bem aos seus. Seja resiliente com a sua mãe que não dorme enquanto você não chega. Seja resiliente com aquele professor que passa a prova mais impossível do mundo. Seja resiliente com seu irmão que pegou emprestado sem te pedir. Seja resiliente consigo mesmo.
Tempestades virão. Sempre. Todos os dias. Cada noite mal dormida, cada dia atribulado, cada pessoa desagradável, cada decepção. Flexibilize-os. Flexibilize-se. Ajude-se...  Tá longe de ser fácil. Mais longe ainda de ser impossível.  

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Sonoro

Desde a noite quente
Do barulho do ventilador insistente
Que ajuda a refrescar pesadelos e sonhos
Enquanto os sons milhares da noite acalmam e assolam a mente

Até os cantos de pássaros matinais
Até os perfumes florais
Invasores do silêncio profundo
Que havia antes da beleza que o pôr-do-sol traz

A vida acordando...
Passos vagos pelas ruas
Onde a rotina continua
Como sempre na luta se vivia
Dia após dia

A multidão despertando
No outono, folhas farfalhando
Na primavera, flores brotando
No verão, sol iluminando
No inverno, frio reverberando...

As vozes baixas de sono enquanto
Não estalam-se os ossos do merecido descanso
Que pousa sob a lua num terno carinho manso
No som do amor dos grilos, no som do vento brando

O caminho alongado à vida central
Rodas no chão, buzinas no ar, carros parados no sinal
Atravessam os corpos ainda preguiçosos
Repletos de sonhos, planos, pensamentos desditosos

Vem o velhinho com seu leve caminhar
De bengala na mão, com mil lembranças no olhar
Atrás, um pobre de um cão cansado
Que teve a noite perturbada por frio e fome por todo lado
Ouve-se as ecoantes gargalhadas dos jovens
Na mocidade comprovada pelo brilho dos olhos
Que ofuscam as desesperanças velhas de quem pensa não mais ter jeito
De quem tem certeza de um mundo sufocado de defeitos

No meio dessa musicalidade natural
Existe maior uma voz que não se ouve
Só se sente na frequência das batidas do coração
Nas rotações por minuto em decibéis inescutáveis

Uma voz que grita, que sufoca, que ensurdece
Um grito abafado, de socorro, que entontece
Eterno, indefensável, mas bom de se escutar
Que invade cada célula dos corpos acordados
Na dificuldade de conjugar aquele verbo... 'Acreditar'

É aquela voz que te implora com toda força que há
"Não desista... Não desista de tentar
 Siga em frente, pode ir, te dou a mão
 Logo ali na frente seus sonhos te encontrarão"
Então se esquece os pássaros, as flores, os tiros, o farfalhar
E concentra todo o ouvir na doçura dessa voz

Que só quer te ver crescer
Que torce pelo vencer
Que chora no derrotar
Mas te levanta do chão
Que não solta da sua mão
E ilumina o caminhar
Até sua hora chegar
Até o caminho acabar
Até que se consiga
Depois de todas as cicatrizes e feridas
Seus sonhos realizar.









terça-feira, 25 de setembro de 2012

Sobretudo

Sobre as coisas que envolvem
Sobre as coisas que encantam
Sobre a simplicidade dos dias que passam

Sobretudo...
Sobre tudo o que se vê
Sobre tudo o que se sente
Sobre tudo de você

Diferente de tudo sobre o que já se viu
Tudo que ficou gravado com carinho nessa mente
Que esquece parte do importante
Que não lembra de nada do que vê pela frente

Pessoas, lugares, ruas e trajetos
Atenção para os detalhes
Inúmeros detalhes, inúmeros flagelos
Detalhes como bolhas de sabão
Que se perdem no vento deixando nada pra trás
Evaporando em sucessivos estouros pelo chão

Tentar lembrar do mais vago quanto possível
Nesse fundo subconsciente
No sobretudo da ideia nascente
Notando enfim que o valioso vive em todas as coisas
Que o milagroso habita no vazio
Em tudo o que se vê, em tudo o que se sente
Em tudo o que passa, em tudo o que estoura
E deixa nada
Pra trás, pra frente...
Pra sempre

Nas flores sem perfume
Nos mares sem brisa
Nos dias sem cores
Nas casas sem janelas
Nas falhas sem dores

Em tudo que existe
Qualquer coisa que persiste
Há beleza de se ver
Há milagre em perceber
Sobretudo, em você


quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Conexão

É preciso viver com cuidado. Preocupando-se a cada passo, sem que isso atrapalhe a fluência natural do movimento da vida. Deixar as coisas acontecerem no seu tempo, na sua suavidade - sem perder o controle, sem empurrar toda a responsabilidade do fazer acontecer pra longe de si mesmo. Ainda que seja difícil demais viver nesse mundo... Nesse mundo onde as pessoas te procuram por conveniência. Nesse mundo onde se caminha pelas ruas com medo. Nesse mundo onde sempre se espera que algum dissabor aconteça repentinamente, afinal, a dor da decepção já acomodou-se integralmente em nosso corpo. Nesse mundo onde os sorrisos são admirados não pela sua pureza, mas pela sua raridade...
Um mundo onde se é carregado pelas idéias da população maciça que te pisoteia ao andar apressada pra chegar Deus sabe onde... Que vivem unicamente com a vaga ocupação eterna de nascer e morrer, sem aproveitar a fundo um sequer dia desse intervalo que lhes foi concebido. E mesmo que não se queira doar sua vida pra esse lugar obscuro que te faz esquecer que ainda existe algo de bom, a força do empuxo é bem maior que se imagina. Se você tem uma meta, é um em um milhão. Se existe alguma pretensão realmente positiva, de tentar fazer o que se tem vontade mesmo que seu maior sonho seja humanamente impossível, orgulhe-se. Muitos passaram por aqui. Alguns fizeram história. Não história mundial, pra serem lembrados e celebrados seus ideais séculos afora. Fizeram história em sua própria vida. Levaram sepultadas as lembranças de uma vida sentimentalmente saudável e a certeza de nunca ter se esquecido de abrir um sorriso nas mais simples situações cotidianas. Fundamentalmente, o melhor caminho é sempre esse. Leveza no coração, sinceridade no olhar, profundidade nas palavras e uma boa dose diária de gargalhadas que ecoam nos ouvidos alheios causando mais e mais gargalhadas, e assim sucessivamente, como uma cadeia infinita de doação direta da mais sincera alegria. Pra se viver com ternura, sem perder a compostura contente de quem gosta de viver, em meio a toda essa loucura, um método interessante... Criar-se um mundo próprio. Autônomo. Anexo. Independente do mundo real. Respeitando cada detalhe do interno e do externo. Sem misturar as coisas. É a famosa história do "eu-queria-que-fosse-assim". Queria que meu cabelo fosse mais liso, minha pele mais macia, meus olhos mais claros. Queria ganhar na loteria, queria uma casa grande, queria um carro de causar inveja. Queria não ter que acordar cedo. Queria não precisar fazer metade das coisas que me foram impostas. Mas elas foram, de fato. E algumas têm de ser seguidas à risca.
Queria trocar de vida com alguém, como em algum filme interessantemente utópico que devo ter visto um dia. Queria. Queria. Queria. Queria... Do verbo "não posso querer porque tá fora do meu alcance" ou "é mais fácil viver num querer eterno do que procurar fazer por onde". De fato, existem coisas que, se colocadas num universo parelelo, fogem à realidade e acabam machucando... Coisas translúcidas que, ao longe, nem conseguem ser distinguidas. Coisas que trazem expectativas não-saudáveis, calcadas em fatos que jamais serão possíveis. Como trazer de volta alguém amado que já partiu pro outro lado desse mundo em chamas. Como curar corações com feridas tão profundas que se tornam crônicas com o tempo... Como querer mudança sem buscar mudar. A maioria do que precisa acontecer depende mais de nós mesmos do que de qualquer outro fato alheio. Parece absurdo porque passamos muito mais tempo com outras pessoas (que têm mais "poder" sobre cada um de nós) do que tentando descobrir quem nós somos, o que queremos, do que gostamos. Acabamos pautando nossas escolhas e objetivos refletindo-nos em vidas externas que em realidade não terão muita serventia se não houver nem um pingo de vontade própria. E passamos a vida fazendo o que o mundo todo faz... Sem se preocupar com o que os habitantes do nosso mundo, esse que é só nosso e que esteve conosco a todo tempo, querem que seja feito de nossas vidas.
Esse mundo interno que é uma confluência de "órgãos" imaginários que, juntos, dão origem a um espaço magnífico. Talvez seja formado por coração, alma e mente. Nessa ordem. Pra que os sentimentos sejam a posição mais alta na pirâmide, a alma seja o filtro de linha fina que só deixe passar as melhores coisas e a mente esteja ali pura e exclusivamente pra organizar as funções de cada vontade ou idéia dos habitantes do seu próprio mundo.
A conexão do seu com o meu, e com o dela, e com o dele, talvez possa transformar esse universo despertencente em algo que queira ser trazido pra perto. Se a sua base for o amor, a minha o respeito, a dela a gentileza e a dele a harmonia, não precisaremos nada além.
Chegará uma hora em que os mundos estarão todos conectados em transversalidade. Juntos, cruzados, apoiando-se um no outro.
Como deve ser. Como sempre deveria ter sido.


"Como é doce morrer nesse mar, de lembrar... E nunca esquecer
 Que se eu tivesse mais alma pra dar, eu daria... Isso pra mim, é viver."

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Cumulus Nimbus


Que venha devagar e sempre
Se em cada gota traga uma imensidade de sonhos bons
Ou ruins, se traga junto a estes esperança para seguir em frente
O barulho da nostalgia acalme cada coração agitado dos belos dias ensolarados
Que roubam toda beleza que há de se ver também nos pingos gelados dessa precipitação
Lavando almas, renovando ciclos
Desmoronando vidas e reerguendo pensamentos
Quando leva embora a luz e deixa só a insossa escuridão
Ao mesmo tempo cheia de vazios preenchidos com idéias claras
Que não se tem vez de pensar enquanto nossos olhos iluminados estão.

Não é de bom grado se ausentar tempo demais
Já que tudo o que vem do céu há de ser sagrado
Se as nuvens já não carregam tua água vital
É certo que o sol alegrias pressupõe
Quando um céu azul anima manhãs em massa
E a escuridão ao acordar aflora desgosto no levantar
Por entre lençóis e travesseiros
Lamenta-se a presença dos pingos firmes e ligeiros
Saibamos tão lindas serem as coisas agraciadas pelos raios do sol vindos
Mas que nos seja fácil perceber a beleza deste conjunto de lágrimas que caem do céu
Aliviando nuvens e fazendo brotar tantas flores que dependentes lhe são.  

Tanto quanto seja possível um dia claro em sol
Ser desbotado pela incessante queda das moléculas vítreas
Dessa substância essencialmente viva
Possível seja reconhecer a atuação pluviométrica
No presente que nos é concedido ao posterior deste espetáculo descrente
A etérea beleza dos arco-íris
Tão frágeis que se vão sorrateiramente
Apenas para nos lembrar de lembrar
Que não há de se ver sempre a faceta do raio que destrói
Mas por vezes o lado bom da chuva que cai
Onde a beleza se encontra desmeteorologicamente
Dentro de cada um que queira vê-la florescer
Independentemente se a chuva, o vento, o sol
Faz viver, faz brotar, faz amar, faz morrer.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Juventude (?) Perdida

Certa vez li uma reportagem de um colunista da revista Época cujo título dizia, num tom desesperado: "O que mais dizer aos jovens?"
Comecei a leitura com a esperança de que fosse algo positivo, do gênero "o que mais dizer aos jovens para que continuem firmes e fortes" ou alguma coisa animadora, reanimadora, estimulante. Engano... "O mundo está perdido nos dias de hoje" era a frase basilar que deu margem a toda baboseira ali redigida. Como se os horrores do universo tivessem surgido no século XXI, na modernidade, na contemporaneidade. Há de se convir que sim, existe uma atualidade jovial que segue resquícios de um passado inesquecível. Mas, repito: resquícios de um passado inesquecível. Não foi um bando de jovens revoltados que escravizou metade da África por acreditar que os negros não tinham alma. Hitler não se encontrava no auge de sua adolescência perdida quando matou os alguns milhões de pessoas que, segundo ele, despurificavam a raça. Tampouco as Ditaduras da maioria das regiões foi feita por pessoas novas desprovidas de discernimento. Há um contraponto: os guerrilheiros, militantes, os heróis das nações, esses sim, eram jovens. Perdidos, alucinados, fora de si. Mas com um propósito e um foco que nem a tortura conseguiu afastar: a liberdade. A democracia, a justiça. Muitas vezes e muitos deles, pelo simples prazer de revolucionar, de tentar mudar. Ou de bagunçar, tumultuar, piorar. Mas há os que orgulham a nossa raça, sendo eternamente heróis de pouca idade... Longe de ter pouca experiência. Olga Benario ingressou no movimento comunista com 15 anos. Anne Frank escreveu um diário que comoveu o mundo de norte a sul, também com 15 anos. Che Guevara foi um dos principais ideólogos e comandantes da Revolução Cubana de 53, com 25 anos. Tanto no Estado Novo em 37 quanto na Ditadura Militar de 64, no Brasil, a maioria da força da guerrilha era formada por estudantes, que têm inclusive o respeito pelo nome da UNE (União Nacional dos Estudantes), onde muitos morreram sendo torturados mas lutando pela democracia até a última gota de sangue. A jovem americana Jan Rose que, usando de sua ousadia de adolescente pensava colocar uma flor no cano da arma de um dos soldados a sua frente durante o protesto anti-Vietnã, tinha 17 anos. As Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colombia) têm uma atuação não muito passível de admiradores, mas, ainda assim, é uma força de guerrilha que luta contra o governo colombiano formada por jovens de às vezes até mesmo dez anos de idade, sem força física ou mental, que são obrigados a deixar suas famílias pra lutar a favor de seu ideal... A princípio, forçados. Num segundo momento, buscando um objetivo liberal, pautado no socialismo.
Bom... Na conclusão, aconselho pensar duas vezes antes de abrir a boca pra reclamar da sociedade atual. Existe muita barbaridade no mundo. Muita. Feitas também por pessoas no auge da idade, que um dia já foram jovens, é claro. Mas cometeram suas atrocidades depois de certa experiência adquirida.
Os jovens estão perdidos? NÃO. Se existe algum grupo que pode salvar essa humanidade suja de sangue e afogada em lágrimas, somos nós. Com toda a certeza, não utilizando de meios como matar uns aos outros pra implantar ideologias ou preferências religiosas. Mas se expressando através da música, da arte, do estudo, do esforço, da dedicação...
Nós temos força suficiente pra mover o mundo.
"Nenhum de nós é tão forte quanto todos nós juntos."
Pelo amor à uma geração heróica, nem tão perdida quanto alguns gostariam que ela fosse.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Infinito Carnaval

Não é muito sensato no ser humano o fato de esperar trezentos e sessenta e cinco dias pra pular de alegria por apenas três ou quatro dias em um ano. Esse clima descompromissado agrada e atrai a atenção da maioria, mas junto com isso, uma boa dose de felicidade vem embutida no pacote. É sério que isso tem que ser assim? Ironicamente, carnaval é época de se esconder atrás de máscaras e sair pulando na rua... E verdadeiramente, é a época onde todos nós jogamos as nossas máscaras no chão e brincamos a alegria de viver, nesse cenário despropositado de cantar marchinhas e seguir a massa. Mas, essa é uma pergunta interessante... Por que esse fenômeno sensacional de felicidade só acontece (em sua maioria) nos míseros dois, três ou quatro dias de carnaval? Por Deus... No carnaval, sorrimos pra cinco pessoas a cada esquina, damos bom dia pros moradores de rua, torramos no sol e andamos quilômetros em meio a enormes multidões sem reclamar de nada, gargalhando e transbordando de felicidade ao fazer isso. E por que não fazemos isso o resto do ano inteiro? Seria inimaginavelmente agradável se durante os doze meses do ano, as pessoas percebessem o quanto a vida é maravilhosa, o quanto nascemos com a incumbência de sermos foliões da hora que acordamos até a hora de irmos dormir... O milagre da vida é pra ser celebrado a cada segundo. Sem depender de serpentinas, confetes, ceias de Natal ou fogos de Réveillon. Se você consegue respirar sozinho, brinde. Se você consegue andar com suas próprias pernas, festeje. Se você consegue ouvir a risada de uma criança e se emocionar, comemore. Se você consegue sorrir apenas por sorrir, sem algum motivo ou comemoração especial, continue sorrindo até que seus músculos faciais não possam mais suportar. Deixe que a alegria colorida do carnaval invada seus dias sem dó, como o sol que te desperta iluminando a janela pela manhã. Ou a chuva. Porque afinal, a felicidade é um sentimento absolutamente independente. Vamos abolir a quarta-feira de cinzas das nossas vidas e "não ter a vergonha de ser feliz" não só no meio da multidão foliã... Mas sempre que você se olhar no espelho e tiver a capacidade de entender como é maravilhoso ter sido abençoado com a vida e com todas as coisas boas que ela veio lhe trazer... Ou as ruins, que com certeza, lhe trarão coisas melhores um dia. Aliás, assim como os defeitos do carnaval, toda vida tem seus prós e contras. Quando tiver que ir trabalhar no sol e andar no meio da massa trabalhadora de terno e gravata, se imagine num bloco imenso de carnaval. Sorria pra cada uma delas como se estivessem comemorando algo. Ou sorria pra si mesmo... Mas não se esqueça de sorrir. Nem por um segundo sequer. E viva a alegria eterna da folia carnavalesca! :)

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Analogia

Como o clima aconchegante do inverno, tem barulho de chuva fraca e de folhas secas voando no chão. Com o corpo frágil de uma taça de cristal, quebra ao menor toque de pouca delicadeza. Exige um cuidado imenso ao ser manuseado, como um bebê recém-nascido abençoado com a inocência. De vez em sempre, precisa de manutenção, como um aparelho eletrônico que tem de ser reparado de tempos em tempos.
Tem cheiro de flor, cheiro de roupa limpa, cheiro de café-da-manhã, cheiro de chocolate... De um cheiro tão estonteante que inebria a rua inteira ao passar. É aquele cheiro que dá vontade de prender num potinho. Aquele que dá vontade de não se deixar esquecer.
Tem cor de arco-íris melhorado, mais detalhado, mais desenhado... Um pouco mais colorido, pra contrastar com o barulho da chuva. Quanto a esse aspecto, não existe nada tão absoluto: quando começa a perder a cor, você pode retocar, não se preocupe. Desde que seja recolorido com a maior calma do mundo.
Tem textura de pele macia, de travesseiro de pena, de colo de mãe, de soneca vespertina, de abraço de melhor amigo com saudade. É tão confortável quanto seja possível. E é ele que vai sempre te acolher em seus braços quando você precisar sorrir.
O mais interessante no
amor, é que ele continua colorido para os cegos. Continua soando agradavelmente aos ouvidos até de quem não pode escutar.
A gente sente o cheiro bom do amor mesmo numa crise de rinite daquelas em que não se sente o cheiro nem do perfume mais forte.
Podemos sentir suas mãos macias apertando com força nosso coração, por mais duro que ele seja.
Eu admiro o amor desde antes de vir ao mundo.
Desde quando fui carregada dentro do corpo de alguém, por nove meses inteiros, com amor.
Desde quando contaram as horas pra me ver chegar.
Desde do primeiro dia em que aprendi o que era um beijo, um abraço, um olhar.
O amor é tão perfeito, que ele nos perdoa por desacreditá-lo por diversas vezes. E é hipocrisia dizer que não o fazemos: mesmo que não seja nossa culpa, desacreditamos.
Quando a gente menos espera, ele levanta a gente no colo, lá no alto, só pra lembrar que ele esteve ali o tempo todo e não te deixou de lado nem um segundo sequer... Depois deixa a gente cair de novo. Aí a gente se machuca. E depois ele vem nos lembrar da sua existência interminável no nosso perto, todos os dias de nossas vidas.
Há quem ache que vive sem amor. Porque não namora. Porque mora sozinho. Porque não tem amigos.
Você não escolhe ter o amor... Ele nasce com você. Se você é rico, se você é pobre, se você é rodeado de pessoas ou se sua única amiga é a solidão. Alguém te fez, de carne e osso, pele, cor... Com todos os defeitos que você tem, e todas as suas incontáveis qualidades. Você pode não enxergar muito bem, não ter olhos azuis, e ter mais celulites do que gostaria. Mas você sempre será amado pelo amor... Não importa quão defeituoso sejas, interna ou externamente.
De fato, o amor é
alguém. Sem forma, sem cor, sem textura, sem som. Todas as características do amor, quem inventa é você. Se você quiser que ele seja claro e frágil, ele será. Se você quiser que ele seja cheiroso e soe como música clássica, assim será.
Incondicionalmente você será amado por ele. Do seu primeiro ao último dia de vida. Você foi um espermatozóide escolhido em milhares para vir ao mundo e ter a chance de admirar uma bela paisagem, comer uma boa comida e conhecer pessoas especiais. Ainda acha mesmo que te falta amor na vida?
Você pode até escolher ser cego pra não ver, surdo pra não escutar. Mas ele vai estar ali do seu lado. Vai dormir com você, vai te fazer sentir dor. Vai fazer seu coração quase saltar pela boca quando você se apaixonar. E depois quase se desmanchar inteiro quando você não mais estiver apaixonado. E, sendo bom ou ruim, ele estará com você.
Se eu tivesse que escolher algo pra lhe dizer, seria sobre o amor. Nada de muito complexo. É tão simples que chega a ser engraçado. Mas tão importante que se faz assustador: Ame-se. Hoje, agora, amanhã, sempre.
E o amor vai caminhar de mãos dadas com você. Lado a lado. Pessoalmente. Ao vivo e a cores. Até o final dessa longa e eterna estrada que estamos acostumados a chamar de
vida...

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Sensibilizando

A cada dia. A cada hora. A cada amanhecer e a cada pôr-do-sol. Sensibilidade, ao contrário do que muitos (lê-se a maioria) pensam, está muito longe de ser sinônimo de fraqueza. Ser sensível significa estar vivo. Nossa alma é um depósito de emoções diárias que se transborda de sentimentos através das lágrimas, a melhor forma, junto com o silêncio, de se expressar taxativamente. As lágrimas purificam nosso ser. Sejam elas de felicidade, de satisfação. Ou de tristeza. Ou de raiva. É como se nosso coração fosse um jardim, e as lágrimas fossem a chuva que o mantém vivo, florescendo, iluminado. As lágrimas de alegria colorem as flores; as de tristeza, levam embora as folhas secas caídas pelo chão. Me orgulho do meu coração derretido. Faço questão de regá-lo periodicamente, sem vergonha de me sensibilizar até com uma criança que passa e me dá um sorriso de presente. Há quem banalize o sentido da sensibilidade por ter medo de enfraquecer. Enfrentar a vida com lágrimas nos olhos é de se orgulhar. Porque, debaixo de qualquer temporal de tristeza, você não vai fechar seu coração. Ainda que uma onda de coisas ruins passem na sua vida, seu jardim vai continuar sendo cuidado por você. Quem não sensibiliza, endurece o coração. Cristaliza nele uma série de sentimentos negativos, uma monte de folhas secas que se acumulam e fazem o jardim do coração secar. E, ironicamente, quanto mais rígido é o coração, mais fácil ele é de se quebrar. Experimente partir no meio uma folha saudável e uma folha seca, e observe qual das duas é mais sensível à agressão. Pois bem, ter medo da sensibilidade é uma estupidez sem fim. Se você se arrepia com uma música, se você chora vendo o mesmo filme pela quinta vez, se você se desequilibra da cabeça aos pés quando briga com seu pai, se você sente frio na barriga quando relê uma carta bonita, se você fica vidrado no olhar de um cachorro na rua... Você está vivo, de fato. Sua sensibilidade vive girando em torno de todos os seus ossos, e você vive essa vida com intensidade. Continue permitindo que sua alma transborde a cada dia... Seja sensível a ponto de perceber quando você precisa ficar sozinho, quando um amigo precisa de você. Sensibilize-se até sentir falta do que ainda nem perdeu, percebendo quanta saudade essas coisas vão lhe deixar um dia. Chore, sorria, grite, chore de novo, flexibilize-se, sensibilize-se. Se deixe transbordar. Seja forte sempre, e se preferir, seja sensível sem usar as lágrimas. Mas pode ter certeza que elas estarão ali para te ajudar quando você precisar. Nunca se esqueça que um órgão vital dentro de você necessita de cuidados pra te manter vivo, muito além dos termos médicos. Cuide dele com todo carinho do mundo, você só tem um.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Metas para 2012

É realmente curioso vermos uma perspectiva de melhora tão distante do presente. Por que, de verdade, precisa existir um motivo especial, como a passagem do ano, para que nosso espírito se anime a mudar? "Projeto Carnaval 2010", "Lista de Metas para o Ano que Vem"... Coisas desse naipe são típicas de depois do meio do ano. A verdade é que essa espera pela melhora devia ser menor. Melhor que do que menor, deveria ser inexistente. Não existe porquê esperar pra ser melhor, pra ser maior, pra ser mais forte. Esse desejo devia ser urgente. Já passou da hora de abrirmos os olhos pra enxergar quantas coisas ruins existem, e como a nossa parte no todo pode auxiliar uma evolução generalizada. A busca pela melhora, a revolução das expectativas ascendentes deve ser DIÁRIA. É bastante nítida e verdadeira a dificuldade desse pedido.. Os problemas são crescentes, e a solução dos mesmos parecem cada vez mais distantes, nos desanimando a acordar com vontade de melhorar, a cada dia. O discurso de desânimo é quase sempre igual. "De que adianta eu emagrecer, engordar, estudar, melhorar, piorar, melhorar de novo, cair, levantar (...) se ninguém vai notar?". Agora, a pergunta que não quer calar: Por que alguém tem que notar? Basta que você acredite na sua melhora, na sua perseverança, no seu querer. E quando você se notar, você perceber que mudou, você perceber que vem acordando disposto a ser cada dia melhor, o mundo vai te olhar com outros olhos. Pode ter certeza absoluta disso. Deixar pro ano que vem, pro carnaval, pro Natal ou seja lá pra quando for, é uma estupidez completa. Abra os olhos, todas as manhãs, querendo ser mais belo, mais forte, mais culto e mais feliz. A cada dia, a cada noite. Isso dá movimento à aquiescência que muitas vezes a vida traz... Pra que esperar trezentos e sessenta e cinco dias pra virar seu mundo de cabeça pra baixo? Não precisamos ser iguais todos os dias. Não precisamos nascer preconceituosos e morrer assim. Nem precisamos nascer conformados e morrer assim. Amanhã ou depois, com um pingo de esperança, você pode perceber que a cor da pele pouco importa e que a falta de questionamento à vida torna nossas mentes cada vez mais atrofiadas. Isso não é obrigatório, é claro. Podemos viver oitenta anos da mesma vida como imbecis, vestindo sempre os mesmos estilos de roupa, acomodados com o nosso ser cristalizado. Mas, se quiser um conselho de alguém que tem pensamentos retardados que não têm absolutamente NADA a ver com a verdade... Mude. Renove-se, inove-se, questione e não deixe nunca de lembrar de não se acomodar com a sua falta de conhecimento sobre algum assunto, com aquela gordurinha que te incomoda ou com aquela pequena discussão que você teve ontem com seu chefe. A acomodação é o primeiro sinal de que você está deixando a vida te levar, sem ter domínio sobre ela... E se eu tivesse que fazer um pedido a você, seria exatamente que você se agarrasse à vida como quem agarra um amigo verdadeiro que não se vê há anos. Porque a vida, é isso. Sua eterna e melhor amiga. Você só tem a ela... O seu carro não é seu, nem a sua cama, nem as suas roupas, nem as suas opiniões petrificadas e imutáveis. Você só tem a vida. Por isso, faça valer a pena cada dia dela, pra que no último dia em que fechar os olhos, a sua retrospectiva seja das melhores possíveis. Comece por mudar agora.

sábado, 10 de setembro de 2011

A Era Negativista

Há de existir, brevemente, graças ao ininterrupto crescimento da nossa tecnologia, um medidor da nossa capacidade incrível de problematizar as situações. Até que ponto vai o nosso dom inato de tornar as coisas tão mais difíceis? Não há uma explicação direta porque, dependendo de nós, essa capacidade pode ser finita ou não. Qualquer imbecil consegue, de forma invejável, reclamar a esmo de qualquer coisa. Mas nem todos nós temos o potencial de resolver o que nos incomoda. E o nome desse mal, que pra mim é um dos piores da humanidade, é falta de atitude. Porque a gente reclama do frio, mas não veste um casaco. A gente reclama do calor, mas não liga o ar condicionado. A gente reclama do governo, mas vota no Macaco Tião. A gente reclama da violência, mas ensina aos nossos filhos a revidar se for agredido. A gente reclama da falta de educação no trânsito, mas avança um sinal a cada esquina. Então, é mole delegar e/ou afastar a nossa parcela de culpa nos defeitos do mundo, sentar na poltrona da sala e gastar 24h de um domingo reclamando da vida. Sem esquecer de mencionar que, daqui a meia hora quando sairmos para almoçar, a gente vai fechar os olhos pra não enxergar as cinco crianças subnutridas vendendo bala no sinal debaixo de um sol de 40°. Mas não é problema nosso, afinal. A nossa única participação nesse mundo é a de falar a toda hora "Aonde é que esse mundo vai parar?". É uma frase legal de se falar. Dentro dentro dela há muitas outras coisas intrínsecas que nos confortam, né? Como aquela história de que as pessoas até poderem querer te ver bem, mas nunca melhor do que elas. A gente reclama todo dia do vazamento na parede que vem da casa do vizinho, mas não quer nem saber se ele tem dinheiro pra consertar ou se realmente não faz porque não quer. Deixa do jeito que tá, afinal, você já tá fazendo sua parte em reclamar, e a vantagem é sua: você é um vizinho menos desprezível do que ele. Na verdade, a solução pra esse problema não é individual. No Direito Civil, chamamos de responsabilidade solidária. Adaptando para questões mundanas, podemos fazer a analogia. Essa culpa é coletiva. Sem falseado discurso ecológico, até porque eu detesto grilos e esperanças, jogando seu chiclete pela janela do carro você contribui pra caramba com a poluição das ruas. Buzinando por três minutos consecutivos, em vão pois o carro da frente não tem espaço pra andar, você contribui pra deixar o motorista da frente mais irritado e bater num poste a um quilômetro dali. Parece banal e ostensivo, mas não é. Essa sucessão de coisas desencadeia em problemas intermináveis, e num cenário onde ninguém é culpado e todo mundo faz a sua parte. O culpado é sempre o vizinho, sempre o próximo, sempre o cara do carro do lado, sempre. Sempre mesmo. Até porque, você sai muito tarde do trabalho.. Vai chegar em casa e comer comida fria, e acordar cedo pra trabalhar no dia seguinte. Só que o que você não sabe, é se o teu vizinho ou o cara que te xingou no trânsito vai ter uma casa pra dormir as suas míseras 4 horas por noite, ou alguma comida pra aquietar o estômago pelo menos até usar o tíquete alimentação no trabalho dia seguinte. Então, quer um conselho? Guarde sua negatividade pra você. De verdade, o mundo não precisa de mais. Vista um casaco, ligue o ar condicionado, pense antes de votar. Não reclame da miséria e da fome. Suba nos morros e doe parte do seu salário às crianças famintas. Pegue as roupas do seu armário e divida com elas. Leve cestas básicas a instituições de caridades que se propõem a fazer isso. Não quer fazer? Tudo bem, mas não diga que fez a sua parte. Tudo que você manda pro universo, o universo manda de volta para você. Em dobro, em triplo, dez vezes mais. Não sou eu que tenho que te ensinar como viver a sua vida, mas a minha parte é aqui, não te dizendo pra se acomodar com os problemas, mas sim abrir os olhos pra enxergá-los e levantar da poltrona da sala pra enfrentá-los de frente. Sem deixar o otimismo atrapalhar sua capacidade de deixar as coisas cada vez melhores. A sua parte nessa evolução, é simplesmente fundamental. Lembre-se disso, a cada discurso hipócrita que for fazer sobre a violência nas ruas depois de assistir ao Jornal Nacional. Pense duas vezes, deixe de lado a mediocridade, e lembre-se de quantas coisas boas nós temos a enaltecer, pra nos confortar com suavidade frente a todos esses problemas que, de fato, existem. Mas eles estão aí pra nós, como qualquer outra coisa. Eles estão aí pra serem encarados. E é isso que nos faz crescer, a cada dia. Acreditar que eles vão melhorar ou piorar não é suficiente. Após algumas tentativas, você tem toda propriedade do mundo pra reclamar o quanto quiser. Mas antes disso.. Nenhuma. Você perdeu a razão. Olhar pra si antes de falar do outro é um bom começo. E se contentar com estar bem, também. Sem se importar se o outro está melhor, pior ou igual. Apenas observe você, e a partir desse momento introspectivo, conseguirá dividir as coisas boas que você tem com todo o mundo a sua volta. Antes de reclamar do texto, tente colocar em prática esse conselho de amiga. Eu tentei, eu consegui. E funciona, mesmo.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Vivo

Difícil não é amar e ser amado. Difícil é amar com a mesma intensidade e reciprocidade aquele que te ama. Difícil não é viver no sofrimento. Difícil é convencer a ti mesmo a se conformar com as coisas ruins que acontecem e sempre irão acontecer, a fim de isolar de uma vez por todas o que te faz sofrer. Difícil não é estudar o dia todo. Difícil é ter sede de aprender e ser incapaz até disso, por alguma deficiência física, mental ou mesmo financeira. Difícil não é ser casado com uma mulher feia. Difícil é encontrar uma mulher que, sendo bonita, feia, magra ou gorda, vá te fazer se sentir satisfeito sem precisar olhar pra mulher do vizinho. Difícil não é ter cinco filhos chorando em seu ouvido. Difícil mesmo, é ter o sonho de ter apenas um e não poder... Difícil não é acordar às quatro e meia da manhã pra trabalhar. Difícil é se sentir impotente por não ter condições nem de sair pra tentar colocar comida dentro de casa. Difícil não é julgar os outros. Definitivamente, não. Difícil, de verdade, é estar ali, na vida de cada um, passando pelos mesmos amores e desamores que lhes pertencem. Difícil não é amar as pessoas. Difícil é aceitá-las com seus prós e contras, entendendo que negativos e positivos fragmentos também fazem parte de nós. Difícil não é achar a melhor profissão. Difícil é entender que a perfeição não existe, e que em todo caminho há obstáculos, sejam estes grandes ou pequenos. Difícil não é ter saudade. Difícil é não ter tido oportunidade de aproveitar até a última gota da pessoa que se sente falta. Difícil não é sorrir. Difícil é perceber que o sorriso espanta quaisquer males que possam vir a embaçar teu caminho. Difícil não é chorar. Difícil é ter tantas mágoas, mas tantas, que estas acabam virando teu próprio consolo, e te impedem de derramar uma sequer lágrima. Difícil não é sentir frio no inverno. Difícil é não parar de sentir frio nunca. Difícil não é abrir os olhos pra enxergar os males do mundo. Difícil é manter os olhos abertos, e não ter a capacidade de enxergar nem as cores, nem as pessoas, nem as flores, nem o sol. Difícil não é ouvir insultos e ter que ficar calado. Difícil é querer ouvir qualquer som que seja e não poder, e querer responder até a algum elogio, e as palavras ficarem eternamente presas em sua garganta, sem que você queira. Difícil não é odiar alguém. Difícil é conseguir odiar uma pessoa depois que você a conhece, e percebe que ela também tem uma história pra contar. Difícil não é morrer. Difícil é olhar para trás e ver que ainda tinha tanta coisa a ser feita. Difícil não é viver... Difícil é querer viver. Sem reclamar, sem chorar, sem odiar, sem insultar. Sem medo de morrer. Apenas viver. Viver vivendo, viver sorrindo, viver amando. Viver querendo viver. Viver pensando, no fim: A vida é mesmo tão difícil que não possa ser vivida com avidez por viver mais a cada segundo? A resposta nem é tão difícil quanto parece...

domingo, 24 de julho de 2011

Multiplicando os Divisores

Confesso que não compreendo de verdade essa admiração subjacente que as pessoas têm pelas figuras dos heróis. Ficcionalmente, pessoas admiráveis e admiradas, que salvam o mundo em dois minutos com os super poderes que lhes foram concedidos. Nesse labirinto intransponível de expectativas ascendentes, sonhamos tanto com esses ditos poderes, que acabamos por não reparar o quão heroi cada um de nós, é. Evidentemente, generalizar neste caso, é sinônimo de irrealidade. Existem vilões por aí que, literalmente, não estão no gibi. Nem a ficção poderia imaginar mentes tão ávidas por maldade, que não se contentam apenas em dominar o mundo, mas têm por objetivo destruí-lo a cada dia. Em contrapartida, há o lado dos mocinhos. Somos verdadeiramente heroicos. Conseguimos partilhar nossos mil quatrocentos e quarenta minutos diários para realizar atividades inadiáveis, no sufoco corrido das horas que não dão trégua nem por um milésimo de segundo. O relógio não pára, nem para folga do almoço. É... A maioria de nós acaba por viver nessa intensa correria de trabalho, estudo, comida, filhos, pais, vida, morte. E ainda almejamos com afinco a idéia de nos serem concedidos super poderes - é absurdo. Nos multiplicamos infinitamente para reduzir o tempo das resoluções, por dia. As mães, de uma, transformam-se em cinco. É roupa pra lavar, feijão pra escolher, arroz pra cozinhar, bife pra limpar, mochila pra arrumar, banho pra dar, filho pra vestir, escola pra levar. Os pais, lá de longe, têm três reuniões antes do almoço, quinze minutos pra almoçar, cinco segundos pra escovar os dentes, e o resto pra resolver quarenta mil coisas que têm de ser entregues ao final do dia. E qual é a surpresa? Eles fazem isso vendados. Não é de se admirar? Os filhos estão (quase) sempre alimentados, de barriga cheia. Chegam no dia seguinte com o trabalho de casa prontinho, a roupa impecavelmente limpa e engomada, com o cabelo e as unhas cortados e bem tratados. Inacreditavelmente, isso é feito sem a ajuda de nenhuma varinha de condão. Realmente, eles são herois. Nós, os estudantes. Numa proporção menor, precisamos também nos multiplicar pra dividir nós com nós mesmos, as tarefas do dia. Provas, trabalhos a entregar, monografia pra terminar, namorado pra fazer as pazes, cartão de crédito pra pagar até as 16:00h, juros do cartão de crédito que não deu pra pagar e não tem dinheiro, conversar com o pai explicando que realmente não deu tempo de ir ao banco ontem... É uma luta diária. Se tivéssemos o poder de voar, de escalar as paredes com teias, de nos esticar metros e mais metros, de ter a força de um leão, e ficar invisíveis de vem em quando, talvez não fizéssemos isso tudo com tanta destreza, como fazemos de fato. Exatamente por termos que aprender a contar apenas com nosso corpo pouco preparado para salvar o mundo, é que nos prendemos no nosso mundo, e somos assustadoramente capazes de fazer de TUDO pra fazer nossa vida não parar de andar. A anatomia do nosso corpo foi desenhada com uma perfeição indefectível, para nos ajudar a entender nossos limites e quando é a hora de parar de salvar nosso pequeno infinito particular. Talvez a nossa maior criptonita seja a idéia de não conseguir resolver por completo as funções que nos foram dadas. É o que nos deixa fraco, desanimados, sem força para seguir em frente e mostrar pra nós mesmos que nós somos capazes, sim. Pode ser que esse calvário de enfrentar a vida de cabeça erguida sem a ajuda de super poderes não seja tão duro assim. Na verdade, os sorrisos amarelos dos trabalhadores que saem de casa, já na labuta, às 5 da matina e voltam muito após o sol desaparecer, são os maiores incentivos para a conclusão de que nossos super poderes nasceram com a gente. Cada um tem o seu. Seja lutar contra o tempo, voar nas horas pra conseguir ver o seu filho acordado, seja ficar invisível para os desânimos, ou escalar as maiores montanhas de dificuldade com as próprias mãos. E nós os manifestamos, a cada dia, dentro de nós mesmos... Aos poucos, mas devagar e sempre. Acredite.

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Se



Se eu pudesse tê-la de volta, acho que nunca mais pediria nada ao universo. As flores voltariam a exalar seu perfume de sempre, a cozinha voltaria a ter o cheiro da comida que era só e unicamente sua e meus olhos continuariam enchendo-se de lágrimas toda vez que te encontrasse. Meu maior desejo se teria realizado, e assim, eu estaria completa novamente. A parte do meu coração que você levou consigo faz uma falta enorme no todo do meu ser, e gostaria muito que você pudesse me entregá-la em mãos, assim como devolver pra minha vida a tua presença, o teu sorriso, e teu olhar inigualavelmente reconfortante.
Se eu pudesse falar com o vento, pediria pra soprar em sua direção nos dias de verão, afim de esvoaçar seus cabelos de nuvem, leves e prateados. Pediria, no inverno, para cessar o seu trabalho e não ventar em sua direção, apesar de amar te ver com frio, usando aquele xale que a deixava ainda mais encantadora.
Se eu pudesse falar com o sol, gostaria que ele pudesse iluminar suas manhãs todos os dias, mesmo que embaixo da chuva forte. Não sei se seria possível, visto que deve ser um sacrifício enorme para ele competir com a luz que emana da tua alma.
Se eu pudesse falar com as flores, ia querer sentir delas o teu cheiro de vó invadindo meu quarto por entre as cortinas dia após dia. Talvez aumentasse a saudade, mas seria um belo presente diário.
Se eu pudesse falar com os pássaros, pediria que seu canto fosse feito com a tua voz, e que eles me acordassem pela manhã e fizessem-me dormir à noite, com o mesmo timbre mágico que te pertencia.
Se eu pudesse falar com Deus, e se é realmente Ele que administra estas idas e vindas de pessoas amadas, talvez eu o pedisse para nunca levá-la para longe de nós. Acho que meu pedido seria negado, então eu pediria apenas para visitá-la onde quer que você estivesse, de vez em quando. Acho que com uma vez ao dia, todos os dias, eu estaria satisfeita.
Se eu pudesse falar com você... Ah, se eu pudesse falar com você, vó. Eu pediria perdão por não ter lhe dito isso quando minha voz ainda podia alcançar os seus ouvidos; Pediria mil desculpas por não ter ficado todos os minutos de nossos momentos juntas lembrando e relembrando o quanto você é única e o quanto sou feliz por tê-la comigo. Me desculparia por não ter conseguido me despedir de você de pertinho, nem olhar sua expressão angelical pela última vez.
Eu agradeceria, e muito – pela saudade linda que deixou em nossos corações, e por ter me feito enxergar como é preciso amar com toda intensidade as pessoas que nos cercam. Agradeceria por você ter se mantido forte, guerreira e linda como uma rainha, até o teu último suspiro de vida. Agradeceria por você ter existido, e por ter transformado os bons momentos nossos em inesquecíveis. Cada palavra que você proferia era uma poesia, que me ensinava a cada dia como ser mais gente.
Se eu pudesse te encontrar, lhe entregaria este singelo papel, como menos de um por cento de demonstração do amor que ainda tinha aqui guardado pra você.
Deposito aqui, toda alegria e paz que você me deu um dia. O amor, o carinho, o zelo, a proteção. Todas as coisas boas de mim, as quais você ajudou a constituir.
São onze meses sem você, e não há um dia em que eu não sinta tua falta. Obrigada por ter feito de nossas vidas um mundo encantado, quando você ainda aqui estava. Com toda saudade e amor que houver no mundo, da sua neta eternamente grata por ter tido, mesmo que por pouco tempo, a ilustre presença de uma avó como você.

quarta-feira, 22 de junho de 2011

"Pra você, Alice"

"Nem era uma manhã tão brilhante assim
Mas eis que você chegou e brilhou a manhã

Por entre os dentes e dedos delicados
Esvoaçava um cabelo de seda dourado

E a luz saía, e brilhava e
Preenchia a si e a sala

E a manhã?
A manhã não se continha em si mesma
Pois ora, você ali estava!

Flor da vida, amendoeira, conhece aroeira?
Flor de cerejeira? A fruta da jabuticabeira?
Sendo por entre os passos,
Os acasos,
Os planos divinos

Desenhando um caminho seu,
Falando uma língua que é sua

Ah! Flor da tarde, flor da noite
Enche de saudade esta manhã"



(Marcia Azeredo Bezerra)

terça-feira, 21 de junho de 2011

Um minuto de silêncio

"Gente, que silêncio! Alguém diz alguma coisa pra quebrar esse clima..." Quem nunca disse ou ouviu essa frase, que atire a primeira pedra. Em épocas da minha vida estive convencida de que era a pessoa mais barulhenta que eu mesma já conheci. Porém, quando descobri o significado do barulho, percebi que minha busca é por um silêncio interno e eterno. Certa vez, lendo palavras de Max Ehrmann, me peguei pensando profundamente no silêncio:
"Siga placidamente em meio ao barulho e à pressa e lembre-se da paz que se encontra no silêncio. [...] Evite as pessoas escandalosas e agressivas; elas afligem o espírito. [...]"
O silêncio muitas vezes pode significar paz de espírito. Pode também significar um vazio imenso entre duas ou mais pessoas onde as mesmas não tem idéia do que dizer, num momento de dúvida, de aflição, de tensão; mas, na maioria das vezes, por achar que o silêncio é o ócio total das nossas mentes, bem como das alheias, julgamo-no como algo nocivo a nós mesmos. Fazendo uma analogia a uma frase muito corriqueira, interpretando de uma forma mais aberta, "passou um anjo por aqui, todo mundo se calou", quer dizer que o anjo trouxe paz ao ambiente - talvez falemos tão superficialmente sobre o silêncio, que não percebemos o bem imenso que ele nos faz. As pessoas solitárias sentem falta do barulho, porque ele faz alusão a algum tipo de companhia. Sem generalizar, percebamos as que moram sozinhas. Quase todas passam a maior parte do tempo com a televisão ligada, como se a voz de outras pessoas naquela caixa eletrônica trancafiadas, fosse arrancar um pouco dessa solidão eterna que invade suas casas. Seguir placidamente em meio ao barulho e à pressa, quer dizer continuar pacífico e calmo, mesmo que imerso nas aflições mundanas que enfrentamos no dia-a-dia, e que se tornam uma poluição sonora irremediável ao nosso espírito. A pressa nos faz esquecer do que nos faz bem, apenas nos deixando sobreviver do jeito que nos cabe no tempo que nos resta das vinte e quatro horas democráticas com as quais somos presenteados desde o primeiro dia de nossa vida. Lembre-se da paz que se encontra no silêncio. Lembre-se, mas de NUNCA se esquecer dessa paz. O silêncio representa a sua profunda união de você com você mesmo. Do seu corpo, alma, mente, carne, ossos, órgãos, células, átomos. Dentro do silêncio você encontra as respostas das perguntas que, em meio aos ruídos cotidianos, não consegue responder a si mesmo e nem àqueles a sua volta. O que acontece muitas vezes é que, as pessoas têm a ciência de que o silêncio é uma máquina de consciência, mas a sua vida se faz tão afoita e embaraçosa que, preferem permanecer em meio ao barulho, sem pensar com intensidade em tudo que lhes cerca. Há um exercício interessante para valorarmos o silêncio com perfeição. Imagine um homem. Um empreiteiro. Um empreiteiro um dia inteiro perto de uma britadeira. Um empreiteiro com 4 filhos. Um empreiteiro com 4 filhos, uma esposa, uma amante, morando num conjugado e uma britadeira. Naturalmente os empreiteiros não têm tempo para meditar e pensar no universo, na consciência, na paz de espírito. Mas, mesmo eles, sem esse espaço, ainda que prefiram estar na companhia de britadeiras a de suas mulheres reclamando e 4 filhos gritando, conseguem valorar mais o silêncio do que nós, que temos tempo suficiente para pensar e praticar o silêncio com destreza e atenção. Perceba em cada segundo de silêncio quantos barulhos apaziguadores existem no mundo. Sem britadeiras, campainhas, furadeiras, choros de criança, latidos e marteladas. Perceba, com totalidade, o namorar dos grilos, o ressonar do sol à noite e o da lua, ao dia. O ruído de sua própria respiração, o trabalho que seus órgãos fazem com precisão para lhe manter vivo e forte em meio a toda essa pressa. Evite as pessoas escandalosas e agressivas; elas afligem o espírito. Ouvi também alguém muito iluminado dizer, certa vez, num lugar cheio de paz, algo que tomou conta de meus pensamentos por muitos dias. Explicou que, quando gritamos uns com os outros, é sinal de que nossos corações estão afastados. Esse fato, é processual. Começa com um grito, o coração se assusta, e se afasta um pouco. No segundo grito, o coração sai de perto. Com o passar o tempo, os corações se afastam de forma que não conseguem encontrar mais o caminho de volta. E assim, você afasta as pessoas de você. Quanto mais pacificamente você se comunica, mais corações trará para perto de si. Quanto menos você fala, e mais acaricia as pessoas com a sua voz, os corações começam a fazer parte do seu, não a ficar apenas perto de você. E quando você já não precisa falar, apenas consegue olhar em seus olhos para compartilharem juntos essa dádiva que é o silêncio, vocês se tornam quase a mesma pessoa. Com essa frase do poeta, hei de discordar: não evite essas pessoas. Ajude-as, no que puder, a serem silenciosas, amorosas, serenas e plácidas como você. Evite sim, ser tão apressado e barulhento a ponto de não conseguir mais ouvir os seus amores, apenas os gritos apavorados das tristezas e dores que, mesmo que poucas, você, como qualquer outro, adquiriu com o tempo. Respeite o silêncio alheio, e acima de tudo, respeite-se. Respeite o silêncio que você precisa, a cada dia. E respeite, mais ainda, o silêncio que o mundo precisa ouvir. Faça o seu silêncio, e, assim, contagiará cada ser do universo aos poucos, com essa paz de espírito que conseguirá exalar no vazio das palavras.

terça-feira, 5 de abril de 2011

Totalitária

Integralidade. Da cabeça aos pés. Na carne, na pele, nos ossos e na alma. Isso é sentir com totalidade. Essa teoria defende que, todos os nossos feitos na passagem pela vida devem ser cumpridos com extrema totalidade pra que sejam, com êxito e verdade, realizados. E mais: absorvidos com sucesso. E o que siginifica essa absorção da qual eu me refiro? É o aprendizado que você tira de cada coisa que passa no cotidiano. As perdas, os ganhos, as alegrias, as tristezas, as dores. Viver cada uma dessas coisas com a tal totalidade, é que nos faz crescer dia após dia. Há pouco passando por uma grande decepção interna, e digo decepção com a minha própria pessoa, tive a oportunidade de me forçar a absorver algumas coisas. Na teoria, é muito bonito. Se fosse realmente assim as pessoas não repetiriam seus erros pois, na primeira queda, o aprendizado seria tão eficaz que as impediria de cair e se machucar novamente. E é o que deveria acontecer. Apesar de que, eu não acredito muito no extremismo. Acreditava, e me confesso volúvel porque após ouvir palavras sensatas de uma pessoa passei a pensar que é um pouco irracional. Passar de um extremo a outro sem uma linha de continuidade para cair e levantar várias vezes, até finalmente aprender a andar devagar e evitar esses tombos. Você muda todos os dias. E muda muito. Mas não suficientemente para passar de um lado para o antagônico desse. Então, a absorção, serve para isso. Quando mais você absorve os dias e as horas de sofrimento ou de alegria, você cresce, você ganha vida pra viver com mais intensidade ainda. Você passa a viver com plena totalidade. Apenas lhe peço que seja total. Seja triste, mas totalmente triste. Caia profundamente nas suas lágrimas fazendo a parte da frente do seu corpo colar na de trás, sinta todos os seus órgãos se retorcerem, ouça o barulho das gotas de sangue pingando do seu coração. Mas sinta, em todas as suas células, a tristeza. Sinta raiva, mas com muita totalidade. Perceba a cólera invadindo sua corrente sanguínea e as suas mãos fechando com tanta força que talvez pareça que nunca mais elas sairão dali. Com totalidade. Seja feliz. Muito feliz. E a totalidade da felicidade é um tremendo pleonasmo .. Porque ser feliz é ser total. Ser feliz não é fingir que não tem problemas, fingir que o mundo não é mundo. Ser feliz é enfrentar as maleficidades do mundo com um sorriso costurado no lugar da boca. E quando você sente a felicidade com totalidade.. Você passa a ser total em tudo porque você percebe o quanto te traz felicidade aprender com o passar dos dias. Mas se você É feliz, na real. Sem hipocrisia, sem demonstração de alegria pra causar invejinha boba em determinadas pessoas. Isso é ser absolutamente burro, e haja totalidade. Se preocupar em externar o que você nem sente pra que os outros queiram ser você .. Sabe, chega a doer os ouvidos escutar uma coisa dessas. Isso tem que vir de dentro. Quando a pessoa é feliz de coração, a luz da felicidade ilumina do primeiro fio de cabelo à última unha do pé, e o brilho no olhar é tão intenso que é perceptível por todos a sua volta. E quando isso acontece, ela não quer saber se as pessoas querem ser como ela.. Ela simplesmente quer que as pessoas sintam o que ela sente. E ela passa seus momentos indiretamente ajudando as pessoas não a serem como ela, mas a ser tão felizes, totais e realizadas quanto ela. Não financeiramente, nem no amor, nem na profissão. Feliz com ela. Ela, e ela. Mais ninguém. Ela é total em si mesma e nada à sua volta importa .. Porque ela pertence a si e a sua felicidade é TODA sua: sem ter que dividir com diversos roubos de energia que ocorrem diariamente. Então, pode ser um conselho um pouco vago mas .. Faça com totalidade. Sofra com totalidade. Chore, ame, sorria, sangre, mate, viva, morra .. Mas com muita, muita totalidade. E boa sorte daqui por diante.

quarta-feira, 9 de março de 2011

09/03/11

Hoje é meu aniversário de 18 anos e 364 dias. É tão estranho porque, em todos os anos, essas dezoito vezes, no dia que antecede o meu aniversário eu fiquei e continuo ficando absorta em meus pensamentos. Talvez porque automaticamente eu fique ansiosa pro dia 10 e faça uma retrospectiva das coisas que fiz com a idade anterior da que estou em vistas de fazer. E isso é patético pois, afinal, é passado - mas em contrapartida, necessário. Filtrar as coisas boas dos dezoito anos e tentar esquecer as ruins para repetí-las aos dezenove, vinte, vinte e um, talvez seja uma ótima idéia. É meio desconfortável pensar que é meu último dia com dezoito anos. Sabe? Eu nunca mais na minha vida terei dezoito anos depois do dia de amanhã. Não sei se é mais fácil deixar do jeito que está, superficial, ou me aprofundar nessa angústia e entender o porquê disso tudo. Pode ser que eu lembre de alguma coisa que queria fazer aos dezoito anos e não fiz. Pode ser que eu me arrependa de algo que fiz. Pode ser que eu caia num abismo infindável de querer voltar no tempo para desfazer ou fazer algo. Mas pode ser que eu me surpreenda com como eu fui feliz nesses 364 de início de maioridade. Tenho que assumir o risco do pensamento, pois minha mente não me dará uma segunda chance. No momento em que eu mergulhar no dia onze de março de dois mil e dez em diante, não poderei mais voltar atrás e esquecer tudo outra vez, pois estou exatamente me forçando a lembrar de tudo. Voltar atrás muitas vezes é uma falta de inteligência tremenda, se aconteceram coisas muito dolorosas em seu passado. Apesar de necessário pois todo nosso conhecimento se constitui através do tempo, que vira passado a cada segundo, é muito triste ter que voltar a alguns fatos que nos aconteceram no pretérito. No meu caso, no tocante à 'fatos tristes', não tenho tantas lágrimas assim a derramar. Das coisas piores que aconteceram, tirei alguns proveitos que me serviram para, nessa renovação 18-19, eu não apenas envelhecer, mas crescer, em sentido próprio. O envelhecimento é triste. O crescimento é altamente satisfatório. Quando você com os anos, amadurece, se torna extremamente prazeroso fazer cada vez mais aniversários e cada vez mais adquirir cabelos brancos. Porque não são mais marcas de cansaço ou rugas de expressão. São marcas de aprendizado. Quando você amadurece, você não envelhece mais. Claro que na matéria, sim. A lei da gravidade atua, a melanina vai se esvaindo com o tempo.. Mas, se você é jovem de espírito e coração, isso se torna muito fácil de administrar e até mesmo de se compreender. E é isso que eu sinto, com o passar dos anos. Dizem que essa sensação só dura, para mulheres, até os trinta e cinco anos. E sinceramente, discordo. Me vejo perfeitamente comemorando com todas as alegrias, discursos e velinhas os meus quarenta e oito anos de idade, por exemplo, com a maior satisfação possível. As pessoas que vivem comigo me fazem querer viver mais. E mais. E mais. Porque me demonstram a cada dia a beleza de ser eu, e de tê-las ao meu lado. A cada ano, tenho que agradecê-las imensamente por essa sensação incrível que é conviver ao seu lado. Descobri agora que, fazer 18 anos e 364 dias é a melhor coisa do mundo. Mas talvez amanhã, no dia 10, fazer 19 anos será ainda melhor. E talvez no dia 15, fazer 19 anos e 5 dias será uma sensação indescritível. Quero ter essa vontade de viver pra sempre.. Aos 19, 35, 60, 90.. Até o dia em que eu possa achar incrível a sensação de deixar todos esses anos para trás, lembrando de como minha vida foi intensamente aproveitada. Obrigada, vida. 19 vezes obrigada.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Inteligência e Semântica

Quem sou eu para dar palestra ou escrever um texto, sequer um P.S. sobre o assunto "inteligência"? Sendo algo que atinge uma tamanha complexidade, e que é relativo em sua estrutura. Na verdade, o texto não é sobre a solidez da inteligência, mas exatamente sobre suas flexibilidades. Esta, por si só, abrange diversas ramificações, que podem ser chamadas mesmo de inteligência ou obter nomes próprios, o que acontece por exemplo dentro do meu raciocínio. Inteligência, conhecimento, instrução. Há quem veja diferenças singelas entre essas três expressões. Há quem não veja diferença alguma. E há os que, como eu, vêem uma diferença imensuravelmente significante. Mas não enxergar a diferença entre eles, é absolutamente natural. São três ferramentas muitas vezes homogêneas e que, quando juntas à primeira vez, não se separam quase nunca mais, consequentemente deixando imperceptíveis as diferenças entre si. Pois bem - Definição de raciocínio: ato mental ou processo de pensamento necessário a um tipo de conhecimento mais mediato e que permite passar de conhecimentos já adquiridos para conhecimentos que se pretendem alcançar. Conhecimento. O conhecer significa descobrir, buscar, estudar, saber sobre. Porém, o conhecimento sem o raciocínio se faz plenamente inútil. Estudamos sobre algo, pesquisando em livros, enciclopédias, sites na internet.. Ou seja, fontes já existentes, pois somos leigos nesses determinados assuntos e precisamos buscar recursos que nos possibilitem conhecê-los. Todavia, livros, enciclopédias e internet muitas vezes divergem em diversas opiniões sobre assuntos variados. Seja por correntes que defendem pontos de vista, outras que não apoiem tanto, e outras que divirjam em todos os sentidos. Assim, o conhecimento se torna vago. Quando você usa o processo de raciocínio, que é atrelado ao fenômeno da inteligência, esses elos se encaixam, fazendo dos assuntos vazios muito mais interessantes, pelo simples fato de que você juntou as peças até chegar enfim a uma conclusão. Conhecer, apenas, não é o bastante. O conhecimento é apenas um meio para chegar à inteligência. Para o cérebro trabalhar em busca de novos aprendizados, necessitamos usar os sentidos perceptivos afim de que os sons, visões, gostos e odores se misturem e formem opiniões concretas dentro dele. O ser humano é a maior máquina já inventada, que comporta capacidade única de lógica e raciocínio; afinal, é o que nos difere das outras espécies animais, com qualidades também peculiares a eles que nós, por nossa vez, não possuímos. O que eu quero dizer com isso tudo é que, uma pessoa não é inteligente pela quantidade de livros que já leu, ou por quantas fórmulas matemáticas sabe de cabeça. Ela é apenas culta. E sem saber usar tudo que aprendeu, esse conhecimento se esvai em fração de segundos. Experimente conversar com um matemático sobre 1ª Guerra Mundial. O seu conhecimento é padronizado a saber fórmulas, números, contas, algoritmos, logaritmos... E não datas, conferências e conflitos internacionais. Evidentemente, não generalizo a classe, pois há um número consideravelmente grande de pessoas inteligentes no mundo. Não só o mercado de trabalho, mas a vida exige inteligência e sagacidade, hoje. Não basta saber tudo. É preciso saber usar tudo aquilo que você sabe. Inteligência é interagir sobre diversos assuntos sem precisar conhecer cada canto deles. É lógica. É ler um texto na prova de Língua Portuguesa e conseguir encontrar ali pedaços de química, física e biologia. A inteligência é um misto de conhecimentos que você adquire ao longo do tempo e põe em prática à medida que as partes do seu cérebro vão encontrando necessidade. Respondendo à pergunta inicial: não sou ninguém, em se tratando de falar sobre a inteligência de forma genérica. Mas sou plena, e principalmente única pra falar sobre a minha inteligência. Que me permite por exemplo, captar todas as percepções que tive ontem, hoje, as que provavelmente terei amanhã e mixar com o que já existe no meu HD externo da mente nesse tempo de vida num compacto de palavras inteligíveis. Perceba que viramos gênios incríveis quando desenfreamos a falar de assuntos sobre os quais conhecemos, ou achamos que conhecemos, ainda que seja pouco. É extremamente confortável conversar com pessoas que estão inseridas em nossa zona de conhecimento mental, pois, além de discutir opiniões, tiramos dúvidas e adquirimos cada vez mais conhecimento. E a tendência é esse processo cada vez mais crescer. É uma troca interminável de discussões, argumentações, pensamentos e por fim, conclusões. A visão futurista disso tudo, no meu processo de raciocínio, é a humanidade evoluindo numa escala calculadamente proporcional de troca de conhecimento. Pessoas mais cultas, contagiando pessoas menos cultas. E tornando-se pessoas cada vez mais inteligentes. O meio hipo perdendo pro meio hiper. E assim sucessivamente.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Mortífera Verdade

Através da história da vida, desde que o mundo é mundo, e comporta em seu interior diversos tipos raros de pessoas que formam um grupo chamado de sociedade, nos são impostas várias restrições em relação a tratar de alguns assuntos. A sociedade nos impõe tabus, que limitam a liberdade que nos é pertencida desde sempre, e fazendo com que muitas vezes guardemos opiniões e dúvidas sobre esses assuntos, seguidos da impossibilidade de expandir as idéias sobre eles. E o assunto da morte, é um deles. Se não o pior, é um dos primeiros na lista do top 10. Sempre que começamos a falar de morte, é claro, por ser um fato triste por si só, alguém sempre dá a idéia de mudar de assunto, de falar de outra coisa, e o assunto acaba não tendo um desfecho explicativo; As opiniões ficam soltas no ar de modo que não se encaixam umas nas outras, e pequenos flashes de idéias vão tomando conta da nossa mente sem que percebamos, no escuro da noite e no silêncio da madrugada. Muitas vezes, esse assunto nos arrepia da nuca aos pés, ainda mais nessas circunstâncias escuras e caladas. Porém, é preciso pensar sobre. Infelizmente ou felizmente, a morte é a única certeza que encontramos na nossa caminhada durante sua antagônica amiga, a vida. É fato que de resto, as coisas são imprevisíveis. Entretanto, a morte, firme no propósito, nos espera algum dia em nossa vida.. No último, é claro. Já pensei diversas vezes em que mito contado sobre a morte eu acreditaria. Se existe realmente um pós-morte tridimensional dividido em céu, purgatório e inferno, ou se a morte é apenas um sono profundo e eterno, ou se voltamos na vida que vem pagando os pecados dessa vida.. São tantas explicações, interessantes e patéticas, impossíveis e cogitáveis; E, mais uma vez, a explicação que serve, é só uma: a que você acredita, e mais ninguém. Nem igreja, nem bíblia, nem pai, nem mãe, nem doutrina, nem nada - é você e você mesmo. Mesmo porque é extremamente atormentador 'cometer nossos pecados' diários, deitar a cabeça no travesseiro e imaginar onde vamos parar depois disso tudo. Contudo, apesar de cada um saber suas dores e temores, a viagem desta pra melhor quando tratada num plano consciente, sem medos e devaneios, é sonhada como uma grande cerimônia de final de vida. Quem nunca se imaginou vestido de toga branca até os pés, subindo aos céus ao som da Primavera de Vivaldi, num dia morno, carregado pela brisa fresca da neblina e pelas nuvens delicadamente confortáveis? Me imagino sendo levada pelos anjos, que por sua vez, têm as feições idênticas às daquelas pinturas arcaicas que de tão minuciosas detalham cada cacho dos cabelos aloirados desses seres pequenos e iluminados. Quando se consegue conceber a idéia dessa única certeza sem o mesmo medo que segue os nossos sonhos, é fácil imaginar o jeito como você acredita ser levado para o mundo de lá. Acho que na minha cabeça o que menos incomoda é a minha morte. Por ser apegada demais aos meus, acabo entrando numa síncope saudosa ao pensar que vou viver apenas uns 80 anos, com sorte, ao lado deles. Talvez a palavra certa não seja apego, dessa vez. De repente a satisfação de ter ao meu lado pessoas como eu tenho, e conseguir imaginar minha vida sem eles se torna realmente doloroso. Não por uma questão de dependência dramática, mas por uma companhia que se faz incomparável e uma felicidade desmedida ao lado deles, todos. Pais, irmãos, primos, tios, avôs - amigos, todos. A saudade que a morte provoca é uma dor incurável. E, circunstancialmente, um sentimento deveras egoísta nos possui quando queremos com todas as forças essas pessoas queridas ao nosso lado. Principalmente vovós e vovôs, que nos acompanham em apenas uma parte pequena da nossa vida, comparado ao que gostaríamos de compartilhar com eles. Porém é impossível conservá-los aqui além de seu limite. E abrindo a caixa de pandora que é esse assunto, a conclusão óbvia e previsível que tiramos é que o movimento da vida é a sua renovação; Imaginemos quão seria estranha a vida sem ter um fim.. E faríamos 100, 200, 300 anos.. As coisas iam mudar, sentiríamos saudades das antigas, conheceríamos as novas, exigiríamos mais da tecnologia. Lamentaríamos as gerações atuais serem diferentes das de antigamente, reclamaríamos dessa violência inconsertável e do aquecimento global devastadoramente preocupante. E quando acabaria toda essa angústia de amar, chorar, reclamar, gostar, admirar e viver? A certeza da morte deve ser um pretexto para que aproveitemos cada dia com a maior intensidade que conseguirmos. Dos 48 textos que tenho, pelo menos em 40 falo sobre 'aproveitar cada minuto com intensidade' - mas cada um deles trata de um assunto central diferente, o que nos faz concluir que em todos os aspectos dessa vida, que é só uma, o importante é viver o agora. O presente, além de ter esse nome porque realmente é um presente, uma dádiva, é o único tempo verbal que nos resta. Simples e bonito, por si só. Só existe o presente, sempre. O passado e o futuro são absoutamente abstratos e inexistentes. Lembramos do pretérito, planejamos o futuro, mas não há como vivê-los, efetivamente. Portanto, como quase tudo o que existe e já foi inventado até os dias de hoje, a morte tem sim o seu lado bom. Dica pra vida? Faça do seu pretérito muito 'mais-que-perfeito', só use o 'futuro do pretérito' para as provas de português e depois esqueça-o: no sentido figurado da expressão, não misture seu futuro nem presente com o que já aconteceu, no caso, o pretérito. O presente do indicativo é o que deve fazer parte da sua rotina. Ontem foi, hoje é, e amanhã também vai ser, no que depender de você mesmo. A morte te espera, em algum momento. Ali pertinho ou lá na frente, te espera. E encarar isso da maneira boa é um grande pensamento pra quem tem medo dela, como eu tinha. Antes de mais uma vez escutar palavras de uma grande pessoa que é com certeza uma das mais sábias que já pude conhecer; Me ensina a cada presente como viver o presente, a cada passado como lembrar só das coisas boas a cada futuro planejar só o que se faça de proveitoso, e principalmente, enxergar a positividade das coisas, como enxerguei nessa. Não que ela venha do jeito que eu imagino que venha. Mas, vai ser bem-vinda, como for, a qualquer tempo... Afinal, tenho toda ela planejada na cabeça. Cores, sons, melodias. Como se de alguma forma eu pudesse sentir algum deles nessa hora. Quando eu descobrir, eu escrevo lá de cima. Ou lá de baixo. Ou de onde eu estiver. Prometo.