segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Resiliência

E voltamos à força da mente. À expectativa. À frustração. E à capacidade de lidar com ela. A resiliência é um conceito oriundo dos estudos físicos, que corresponde a uma característica que certos materiais têm, de acumular energia quando exigidos ou submetidos a estresse, sem que ocorra alguma ruptura. Para a psicologia, que adaptou o conceito, a resiliência se refere ao "processo e resultado de se adaptar com sucesso a experiências de vida difíceis ou desafiadoras, especialmente através da flexibilidade mental, emocional e comportamental e ajustamento a demandas externas e internas". A palavra é estranha, mas a essência é brilhante. O conceito parece vago e abstrato, mas, de fato, todos sabemos com exatidão o que ele significa, talvez mais empírica do que fundamentalmente. Por mais rígidos que julguemos ser, somos submetidos a diversas dificuldades diariamente. A maioria delas passa desapercebida, e por muitas vezes nos vinculam a mudanças intrínsecas mais difíceis ainda, o que implica num amadurecimento contínuo, sem que sequer notemos.
Flexibilizar-se não é a tarefa mais simples a ser realizada pelo ser humano. Quase sempre, uma necessidade assustadora de autoafirmar a força inatingível de nossas opiniões ou personalidades acaba por atrapalhar o processo de malemolência para com a vida. E isso complica tanto...
Ser resiliente é poder adaptar a mente a novas situações sem que isso cause uma guerra nuclear em nossa massa cinzenta. Sim, é difícil. É difícil aturar a patetice das pessoas do seu trabalho ou faculdade. É difícil ter que acordar cedo e ir dormir tarde. É difícil trabalhar e estudar ao mesmo tempo. Dificuldades progressivamente infinitas. E a mudança não cai do céu. Se há insatisfação com situações corriqueiras, das duas uma: ou a gente desiste e sai fora, ou a gente se adapta, toma coragem e resolve. Ah, ou a gente continua mergulhado em toda aquela grande infelicidade, e assim permanece. Conheço muitos. Talvez esse último, seja o caminho menos tortuoso. Afinal, é muito mais fácil sentar na poltrona e reclamar até dizer chega. Levantar e procurar outra coisa dá muito trabalho. Respirar fundo e encarar de frente, então... Fora de cogitação.
Morro de inveja da água, que se adapta tão bem a todas as três formas. Consegue ser absolutamente útil sendo sólida ou líquida. Gasosa, nem tanto. Nas outras duas, não perde o gosto nem a qualidade. Não resiste ao fato de ser congelada, depois descongelada, depois misturada, filtrada, salgada. A água é só a água. Não deixa de ser ela mesma simplesmente porque teve de flexibilizar seu estado natural.
Não deixaremos de ser quem nós somos por nos deixar levar algumas vezes. Ceder a todo tempo também não me parece a melhor opção. Resilir, sim, mas no limite das nossas vontades, sem deixar de consumar nossos sonhos e desejos em função de situações ou pessoas alheias.
Acredito que seja simploriamente uma questão de inteligência. Se diante de toda e qualquer situação que importe em dificuldades a serem enfrentadas, nos tornarmos uma cômoda barra de ferro, provavelmente só dará certo quando conseguirmos aplicar àquele problema uma característica que já possuímos inclusa na matéria-prima dessa barra. Caso a situação exija maiores esforços, a guerra está declarada. Metade do seu cérebro vai te dizer que você é assim e não vai mudar, e a outra metade só vai conseguir começar a pensar em "podia ter agido diferente" quando o resultado da rigidez já for irresolúvel. Nessa fase, você já magoou alguém. Ou já perdeu o emprego. Ou já perdeu um amigo. Ou já se perdeu.
Seja resiliente com aquele velhinho que puxa papo no ônibus na volta pra casa. Seja resiliente com seu chefe que não foi educado a tratar bem aos seus. Seja resiliente com a sua mãe que não dorme enquanto você não chega. Seja resiliente com aquele professor que passa a prova mais impossível do mundo. Seja resiliente com seu irmão que pegou emprestado sem te pedir. Seja resiliente consigo mesmo.
Tempestades virão. Sempre. Todos os dias. Cada noite mal dormida, cada dia atribulado, cada pessoa desagradável, cada decepção. Flexibilize-os. Flexibilize-se. Ajude-se...  Tá longe de ser fácil. Mais longe ainda de ser impossível.  

5 comentários:

  1. Até que enfim!!
    Estava com saudades de ler algo escrito por você.

    Muito bom, como sempre! Meus parabéns.

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  2. Sinistro. Parabéns!

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  3. Teoria muito boa, e o texto mais ainda! Sempre perfeita! ;)

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